Cirurgia plástica: vale a pena?

Existe uma tendência entre nós, cirurgiões plásticos, de abolir a classificação que divide a cirurgia plástica em estética e reconstrutiva. O argumento para tal é que,  nos dois casos, tratamos um defeito físico independentemente da sua origem congênita ou adquirida.

Porém, para fins didáticos julgo válida a  divisão.

Assim, podemos dizer que a cirurgia plástica dita “estética” está em clara  evidência. Conhecemos muitos  que já realizaram, muitos  que desejam realizar e muitos que não o fariam nem de graça. O fato é que o tema  ainda é visto com alguma desconfiança mesmo dentro do meio médico.

Em seu livro, “Aprendiz do Tempo”, Dr Ivo Pitanguy relata  que no início de sua carreira, na Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro,  o tratamento de feridas complexas ou queimaduras era deixado a um  segundo plano, pois as especialidades cirúrgicas da época  consideravam tais efermidades “menores” e não tinham o interesse necessário para oferecer um tratamento adequado. Na época a especialidade da cirurgia plástica ainda não apresentava correspondência no Brasil, apesar de muito difundida na Europa e Estado Unidos.

Então, trazendo para si estes pacientes “renegados” , Dr Ivo Pitanguy fez nascer  e crescer a especialidade no Brasil. Trata-se portanto, de especialidade nova entre outras tantas e  assim sendo,  ainda procura o devido respeito (porque espaço já tem de sobra).

Talvez o principal argumento que alicerça  a desconfiança pela especialidade é  aquele que  diz que  o paciente que procura a cirurgia plástica está saudável e se coloca em uma situação de risco desnecessária. Será?

A atual definição de saúde da Organização Mundial da Saúde é bem clara quando afirma que: “ Saúde é o bem estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença.”  Logo, podemos não ter doença alguma e nem por isso estarmos completamente saudáveis. Além disso, basta lembrarmos que as patologias ligadas ao estado mental estão entre as mais prevalentes no mundo moderno.

É muito difícil, mesmo para o especialista, julgar o quanto um defeito físico pode incomodar alguém. Muitas vezes uma discreta cicatriz pode parecer uma enorme deformidade para quem a possui dependendo do significado atribuído a ela. Assim, o cirurgião plástico deve fazer valer o aprendizado médico básico de sempre valorizar a queixa do paciente.  E, nesse momento, pode tomar as vezes de um psiquiatra esmiuçando o incômodo com a pequena cicatriz para  não incorrer no erro de uma cirurgia mal indicada ou deixar de aliviar a dor alheia e descumprir o julgamento médico Hipocrático .

Converse com um especialista em cirurgia plástica

Obviamente, um cirurgião plástico mais experiente ou mais observador, logo identifica os casos extremos ou psiquiátricos e dá a ele o rumo certo, mas os casos “borderlines” também estão sempre presentes nos consultórios e,  nestes, também pode se esconder o perigo da superindicação cirúrgica.

Porém, em grande parte  da nossa prática diária, lidamos com pessoas que têm clara consciência do que as incomoda e  em que parcela esse incômodo prejudica o seu dia a dia. Além disso, entendem os riscos de  buscar uma mudança para aquele defeito, literalmente pagam para se submeter ao risco e, no final da história, saem extremamente realizadas e gratas por ter tomado aquela decisão.

Portanto, a resposta para o questionamento que intitula nossa discussão depende muito de questões subjetivas que só a conversa franca de paciente e médico coscientes  pode responder.

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